Sem fim, nem começo

Postado por Reginaldo em 13 de dezembro de 2010

Você, como eu, deve ter gente que aportou em sua vida de maneira enviesada. Explico: falo de pessoas que gostaríamos de ter conhecido há mais tempo, em outra situação ou recanto do destino mas, contra nossa vontade, resolveram surgir fora do script e em outro momento. Hoje cumprem papel diverso e, por mais que nos esforcemos, nos trazem sempre à mente a busca de situações já transcorridas, em que poderiam ter tido papel significante.

Esse tipo de sensação produz em mim uma leve frustração. Afinal, são pessoas percebidas como chaves para portas que não mais existem, pares para romances não vividos, parcerias jamais construídas. Não fosse o anacronismo de tempo e espaço, elas teriam mudado minha vida. Hoje é tarde demais, já não há mais chance, nem momento para o que já foi um dia.

Tais pessoas, além da frustração, me trazem uma incômoda sensação de um “déjà vu invertido”: poderiam ter sido, mas não foram. Hoje são, mas cumprem papel diferente em minha vida e destino.

Nos últimos tempos algumas pessoas assim têm-se tornado minhas amigas. Cumprem um enredo esquisito, pois sempre as vejo no passado, desempenhando papéis perfeitos em minha existência. Algumas delas são jovens demais, e me irrita saber que nasceram tardiamente. Outras são mais velhas, e me lamento pelo fato de terem nascido antes do tempo – do meu tempo, claro…

Nesse desencontro do tempo e do espaço descubro que nós, humanos, ocupamos territórios que muitas vezes não guardam coerência com o que sabemos e aprendemos. As pessoas que hoje encontro e me identifico são peças que ficaram faltando no quebra-cabeça de minha existência. Têm um espaço em minha memória, e a amizade que com elas construo no presente tem um pedaço perdido no passado.

Neste mosaico que vou construindo com a ajuda desses amigos estranhos me sinto como um costureiro a coser o passado e o presente. De tudo, no entanto, descubro a certeza de que a amizade é eterna: não tem começo, nem ponto de chegada.

(Alexandre Pelegi, jornalista e consultor; editor do Primeiro Programa, Rede Transamérica FM; autor do livro ‘Acertar é Humano’)

Carpe Diem

Companheiros de viagem

Postado por Reginaldo em 10 de dezembro de 2010

(por Alexandre Pelegi)

Foi no filme “Melhor É Impossível”, estrelado por Jack Nicholson e Helen Hunt, que ouvi uma daquelas declarações de amor que considero definitiva: “Você me faz querer ser alguém melhor”…

A frase, mais do que fazer a personagem vivida por Helen Hunt se desmanchar em lágrimas, levou-a a baixar a guarda e a desmontar todas aquelas defesas naturais que carregamos a tiracolo quando o assunto é amor.

A decisão de partilhar a vida com outra pessoa é um dos grandes fatores de mudança do ser humano. Se causamos esse desejo em alguém, ou se o oposto acontece, não importa o sujeito da ação: o que vale e fica é que fazemos, cada um a seu modo, a diferença na vida do outro. Mais que isso, mostra que cada um tem o poder de levar quem ama a abandonar o conforto do porto seguro para se atirar numa arriscada aventura em alto mar; a trocar o destino da viagem, seja ele qual for, pela companhia que esta experiência proporciona, não importa o norte, nem o roteiro a seguir.

Conhecer o mundo acompanhado é instigante e tentador. Descobrimos com o tempo e a experiência que a paisagem externa é sempre decidida pela companhia que trazemos na viagem. É quando entendemos que muito do que vemos do lado de fora da janela do avião ou do ônibus – não importa o veículo -, não está em nossos olhos, mas na emoção que trazemos conosco. O coração determina o que vemos e sentimos.

Viajar bem acompanhados, mesmo quando a solidão é nossa companheira opcional e consciente, é a melhor fonte de prazer, seja na vida ou no turismo. O que, convenhamos, dá no mesmo; afinal, estamos no mundo só de passagem…

Escolher, ou ser escolhido, torna não só nossa viagem terrena menos turbulenta, como inesquecível e reveladora…

Carpe Diem

Não se deixe em paz

Postado por Reginaldo em 30 de novembro de 2010

(por Alexandre Pelegi)

Se você não me queria / Não devia me procurar / Não devia me iludir / Nem deixar eu me apaixonar…

A letra do antológico samba de Monsueto (“Me deixa em paz”) continua atualíssima quando o assunto é a relação amorosa. É tradição daquilo que gosto de chamar de “universo sentimental” a prática de imputar aos outros a responsabilidade por aquilo que sentimos. Não fora assim e as músicas dor-de-cotovelo não teriam tamanho espaço no cancioneiro popular… É como se todos cantássemos, em estado de fossa, “se ele(a) não queria, não devia ter deixado eu me apaixonar”.

É nesse instante que é preciso tirar o cotovelo do balcão e perguntar na contramão: “Você tem controle sobre o que os outros sentem por você?” A resposta, óbvia, só poderia ser um “é claro que não!”. Os sentimentos que nutrimos pelos outros muitas vezes não guardam relação com o que o outro é, nem com o que faz, mas com o que ele suscita em nós. Estamos aptos o tempo todo a sentir coisas, a preencher carências, a ocupar espaços vazios que trazemos e muitas vezes cultivamos. Sim, cultivamos, pois há gente que adora enxergar na tristeza um estado d’alma permanente…

Ao dizer que alguém suscita algo em nós me refiro à mais universal verdade da vida: nós provocamos sensações às mais diversas a qualquer pessoa. Repito: qualquer pessoa. Muitas vezes alguém que mal conhecemos passa por nós na rua e esse fato nos induz a algum tipo de sensação involuntária. Sentimos asco, atração, medo, tudo isso sem qualquer predisposição. Sentimos e pronto. E o outro mal sabe, e talvez morra sem jamais saber…

Se ouvir música dor-de-cotovelo é agradável, ou se curtir uma fossa de quando em vez é um exercício para o autoconhecimento emocional, repensar as responsabilidades envolvidas em nossos sentimentos é tarefa obrigatória.

“Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra que é pensada.

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.”

Parafraseando o poeta Fernando Pessoa, poder-se-ia dizer que temos uma vida que é vivida e outra que é sentida. Mas por ser a única vida que temos, ela pode ser bastante melhorada se conseguirmos aproximar o que vivemos daquilo que sentimos. Começando, quiçá, por descobrir em nós as motivações maiores para aquilo que esperamos do próximo.

Carpe Diem

Caminhantes

Postado por Reginaldo em 28 de setembro de 2010

(por Alexandre Pelegi)

Há pessoas que deixam pegadas eternas pela vida. Seguem seu próprio caminho, sem se importar com os obstáculos que encontram, nem com as distâncias que as separam de seus destinos. Elas apenas caminham, marcando cada passo com energia e convicção, deixando atrás de si um rastro de originalidade e sabedoria. Suas pegadas só são percebidas pelos que vêm depois, e que descobrem ser aquele o melhor caminho para uma vida melhor. Mas os que seguem a mesma estrada e trilham as mesmas pegadas, estes não encontrarão diante de si nem os mesmos desafios, nem os mesmos obstáculos, e todas as descobertas já serão conhecidas.

O desafio de nossa caminhada terrena está não só em descobrir por qual estrada devemos seguir, mas a que destino almejamos chegar. Aqueles que olham apenas para o chão, seguindo os passos de outros, dificilmente terão problemas no percurso. A segurança de sua jornada está em repetir o caminho que muitos já trilharam, pois seus problemas serão menores e mais previsíveis.

Mas há aqueles que preferem admirar as paisagens da estrada e em sentir prazer na aventura da jornada. Na curiosidade de descobrir novos lugares e de perceber novos encantos, eles se aventuram por trilhas inóspitas e desconhecidas. Muitas vezes, olhando para o céu e orientando-se pelas estrelas, eles se descobrem voltando para o local de onde saíram, mas o atraso não os assusta, nem intimida, pois se sentem mais seguros e animados. Eles, sem o saber, vão fazendo seu próprio caminho.

Aqueles que seguem as trilhas demarcadas, ao contrário dos aventureiros, chegarão sempre a algum lugar. Mas como caminharam com os olhos pregados ao chão, pouco poderão dizer do que viram… Os que se encantam pelo caminho dificilmente chegarão a algum ponto final, mas saberão de muitos atalhos e terão sempre muitas histórias para contar.

Sua maior conquista é o que aprenderam: a magia da vida está na eterna mudança, e o destino não é algo fora de nós, mas um desafio sagrado que trazemos na algibeira.

Carpe Diem