Não se deixe em paz

(por Alexandre Pelegi)

Se você não me queria / Não devia me procurar / Não devia me iludir / Nem deixar eu me apaixonar…

A letra do antológico samba de Monsueto (“Me deixa em paz”) continua atualíssima quando o assunto é a relação amorosa. É tradição daquilo que gosto de chamar de “universo sentimental” a prática de imputar aos outros a responsabilidade por aquilo que sentimos. Não fora assim e as músicas dor-de-cotovelo não teriam tamanho espaço no cancioneiro popular… É como se todos cantássemos, em estado de fossa, “se ele(a) não queria, não devia ter deixado eu me apaixonar”.

É nesse instante que é preciso tirar o cotovelo do balcão e perguntar na contramão: “Você tem controle sobre o que os outros sentem por você?” A resposta, óbvia, só poderia ser um “é claro que não!”. Os sentimentos que nutrimos pelos outros muitas vezes não guardam relação com o que o outro é, nem com o que faz, mas com o que ele suscita em nós. Estamos aptos o tempo todo a sentir coisas, a preencher carências, a ocupar espaços vazios que trazemos e muitas vezes cultivamos. Sim, cultivamos, pois há gente que adora enxergar na tristeza um estado d’alma permanente…

Ao dizer que alguém suscita algo em nós me refiro à mais universal verdade da vida: nós provocamos sensações às mais diversas a qualquer pessoa. Repito: qualquer pessoa. Muitas vezes alguém que mal conhecemos passa por nós na rua e esse fato nos induz a algum tipo de sensação involuntária. Sentimos asco, atração, medo, tudo isso sem qualquer predisposição. Sentimos e pronto. E o outro mal sabe, e talvez morra sem jamais saber…

Se ouvir música dor-de-cotovelo é agradável, ou se curtir uma fossa de quando em vez é um exercício para o autoconhecimento emocional, repensar as responsabilidades envolvidas em nossos sentimentos é tarefa obrigatória.

“Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra que é pensada.

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.”

Parafraseando o poeta Fernando Pessoa, poder-se-ia dizer que temos uma vida que é vivida e outra que é sentida. Mas por ser a única vida que temos, ela pode ser bastante melhorada se conseguirmos aproximar o que vivemos daquilo que sentimos. Começando, quiçá, por descobrir em nós as motivações maiores para aquilo que esperamos do próximo.

Carpe Diem

Uma resposta para “Não se deixe em paz”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *